quarta-feira, 17 de julho de 2019

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Reconciliação da Igreja com Padre Cícero está a caminho


Vaticano volta a olhar para a vida de Cícero, para viabilizar sua reabilitação. Processo pode permitir que ele ganhe a condição de servo, a primeira das etapas até uma chance de canonização oficial. Ele morreu impedido de atuar como padre

Por Cláudio Ribeiro

Cícero Romão Batista morreu 85 anos atrás, suspenso de exercer suas atividades de sacerdote. Impedido de celebrar, batizar, casar, suspenso de pregações, confissões, de qualquer cerimônia religiosa. Até de orientar os fiéis. A punição havia sido aplicada pela Igreja Católica Apostólica Romana, em 1892, acusado de desobediências a regras eclesiais e por omitir informações a seus superiores.
  
Ele era o capelão de Juazeiro do Norte - o sexto nome, na lista cronológica. O primeiro havia sido em 1827. Chegou ao lugar em abril de 1872, dois anos depois de ter sido ordenado padre em Fortaleza. Juazeiro ainda era um arraial, um povoado das terras de Crato.
O fato usado como culpa em seu julgamento completou 130 anos. Foi o episódio da hóstia que virou sangue na boca da beata Maria de Araújo, em 1º de março de 1889. Ela comungava durante a missa celebrada por ele. Os presentes na capela de Nossa Senhora das Dores assistiram à cena. Evento inexplicado, logo associado a milagre. Mas também considerado por vários como fanatismo.

O professor e pesquisador Renato Casimiro conta que o então bispo da diocese do Ceará, que funcionava na Capital, dom Joaquim José Vieira, "soube atravessadamente pelos jornais, por comentários de outros padres, por telegramas. Ficou furioso com o Padre Cícero por ele não ter feito a devida comunicação ao seu tempo".
A irritação se desdobrou em castigo e durou até 1934. Efetivamente, nunca foi desfeita, segue em sua biografia. É o que o processo de reabilitação tenta desfazer. Cícero nunca se viu como culpado na história.
Embora estivesse interditado pela Cúria Romana, sempre se manteve sob o tratamento de Padre, nunca se desfez do uso da batina. Em Juazeiro e por onde andasse. Chegou a viver dez meses em Roma, no ano de 1898, tentando pessoalmente voltar com sua absolvição.



"O santo do sol", "santo dos romeiros"

Agora, a própria Igreja conduz o processo para reabilitá-lo. O sigilo é uma das regras. Em 2002, a Diocese do Crato criou uma Comissão de Reabilitação Histórica e Eclesial do Padre Cícero.
O grupo foi a Roma em maio de 2006, chefiado pelo então bispo local, dom Fernando Panico. Levaram os documentos iniciais que hoje tentam recuperar a imagem do "santo dos romeiros". Também o chamam de “O santo do sol”, pelo céu aberto que encobre a lida dos devotados nordestinos.
Ainda em vida, era reverenciado na terra das romarias por gente de todos os cantos do Nordeste. Hoje, os visitantes não são mais apenas da mesma região - chegam de todo o Brasil e de fora do País.

Em 2015, foi remetido para o Ceará "o documento mais atual do caso", segundo o atual bispo de Crato, dom Gilberto Pastana. É a carta assinada pelo secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin.

A correspondência tem peso relevante, porque “foi redigida por expressa vontade de Sua Santidade, o Papa Francisco, na esperança de que Vossa Excelência Reverendíssima não deixará de apresentar à sua Diocese e aos romeiros do Padre Cícero”, diz um trecho do documento.
"(A carta) nos recomenda que procuremos trabalhar cada vez mais essas virtudes humanas e espirituais do Padre Cícero", explica dom Gilberto. Ele pondera que "o caso do Padre Cícero ainda continua na Congregação para a Doutrina da Fé, não está (na Congregação para) Causa dos Santos. Algumas situações ainda precisam ser esclarecidas".

Reabilitar, reaproximar

O Vaticano tem avançado no caso silenciosamente, juntando materialidades e entendimentos que comprovem seu trabalho sacerdotal, respeitoso à Igreja, sua atenção com os romeiros, a vida dedicada à religião. A coleta de evidências, virtudes e comprovações do trabalho eclesial pode ser aberta ou a mais anônima possível. Cícero está sendo revisitado em seu sacerdócio. Também a partir da palavra respeitada e ouvida pelos romeiros.
Reabilitar Cícero seria a recuperação de suas ordens de padre. Porém, não teria efeito no pós-mortem. Daí a ideia de que o caso ter a perspectiva de reconciliação. "Quando fala de reabilitação, o processo fica preso às questões doutrinárias. A questão da suspensão, o fenômeno da hóstia...", explica o pesquisador José Carlos dos Santos, professor de Filosofia da Universidade Regional do Cariri (Urca) e do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (IFCE). Ele fez parte da comissão formada em 2002.
Reabilitar seria também a possibilidade de readmitir Cícero como membro da Igreja Católica Apostólica Romana. Reconciliar, reaproximar ainda mais. Uma das expectativas que se cria, na visão do professor José Carlos, é a chance de o Padim ser reconhecido como um servo de Deus.
Na gradação do rito canônico, tocada rigidamente pela Congregação para a Causa dos Santos, depois de servo o indivíduo pode vir a se tornar venerável, depois beato, até chegar ser canonizado - estes dois últimos postos dependentes de milagres atribuídos. Para os romeiros, Cícero já é santo faz tempo.


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