SAUDADES DE QUIXERAMOBIM
Manuel Bandeira*
O cabeçalho
desta crônica mais parece título de alguma valsinha. Aliás, se eu tivesse bossa
para a música, gostaria de compor três valsinhas – Saudades de campanha,
Saudades de Teresópolis e Saudades de Quixeramobim. Poria num chinelo a
Antógenes Silva com as suas Saudades de Ouro Preto e Saudades de Uberaba, essas
duas delícias.
Creio que as
saudades de Quixeramobim não são as que mais doem. Como me doem as de Paris.
Porque a verdade é que não estive em Paris: estive durante três dias num quarto
de hotel na Rua Balzac. Do mesmo modo, não estive em Quixeramobim: estive
durante uns meses num sobradão da praça principal da cidade, em frente à velha
matriz, e se estou batendo esta crônica de saudade é porque vi n’O Cruzeiro** de umas semanas atrás uma
fotografia do templo, não como é agora, desfigurado pela restauração, mas como
era ainda em 1908.
Os dois
veteranos pardieiros, a igreja e o meu sobrado, pareciam as duas personagens de
um apólogo dialogal. Dois fantasmas. A casa dava fundos para o rio, de sorte
que, logo que eu cheguei, fui à janela ver o rio. Foi uma grande lição de
geografias: não havia rio nenhum: O Quixeramobim estava seco, seco; o que eu vi
foi um areal, branco como uma praia, sobre o qual se arqueava a enorme ponte de
estrada de ferro. E nesse areal várias cacimbas. O sobrado, que tinha um ar de
mal-assombrado, era de tantas e tão espaçosas peças, que a matuta que levei
para lá como cozinheira se perdia nele e um dia me disse, atarantada, que não
sabia navegar naquela casa, não!
Eu vivia
encantoado na sala da frente, que de um oitão a outro, com várias sacadas para
o largo, mobiliada (atenção, revisor: não ponha “mobilada”, que é uma palavra
que eu detesto!) com uma cama-de-vento, uma cadeira e um lavatoriozinho de
ferro.
De vez em
quando morria um cidadão de Quixeramobim e o sino grande da matriz entrava a
dobrar. Era formidável. Sino de Quixeramobim, baterás por mim? Dizia eu comigo
pressagamente. Quantas vezes, a horas diversas, chegava eu a uma das sacadas de
frente e ficava a olhar a velha igreja! Onde nunca entrei e hoje tenho pena. Tudo
isso virou saudade e sinto grandemente não ter bossa para escrever a valsinha
que a exprimisse bem no estilo amolescente de Antenógenes Silva.

(Eliézer Rodrigues,
revista Singular)
** Abaixo, veja fac-símile
das páginas da revista O CRUZEIRO, onde o cearense Gustavo Barroso escreveu um
belo artigo sobre a vetusta matriz de Quixeramobim.
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